SOBRE QUANDO A MODA SE TORNOU ARTE

alguns estilistas transcendem o pragmatismo e a função básica da vestimenta para alcançar algo maior, como fazem os grandes artistas. HAROLD KODA

Daí que eu esbarrei nessa entrevista bem bacana, publicada pelo site Fashion Projects. Quem entrevista é Ingrid Mida – que não é jornalista, mas artista e pesquisadora da interseção entre moda, arte e história.

O entrevistado, Harold Koda, é curador do Instituto de Vestuário do Metropolitan Museum of Art – há 11 anos – e autor de 19 livros. Responde à investigação de Ingrid sobre “quando a moda se tornou arte” – já que a grande questão é bem essa -, e não aquela velha história do to be or not to be entre os dois universos.

Acho interessante mostrar alguns highlights dessa entrevista que, na verdade, é parte de uma sequência investigativa da moça, uma série de bate-papos com curadores de museus importantes worldwide! Bom. E demais.

A tradução é livre e fragmentada. Koda fala bastante, mas tudo é muito importante. Quem quiser poderá ler, na íntegra, aqui (em inglês).

Harold Koda

INGRID MIDA: Onde está o limite entre a moda e arte contemporânea?

HAROLD KODA: Até o último quarto do século XX existiu, sim, um limite claro entre a moda e as consideradas “fine arts”. Com raríssimas exceções, os designers de moda não se consideravam, eles mesmos, artistas propriamente ditos. Eles estavam mais alinhados às artes aplicadas, e associavam seu trabalho às tradições artesanais.

Mas essas tais exceções encontravam lugar em, por exemplo, Paul Poiret. Ele acreditava que as habilidades exigidas para se criar um vestido excepcional eram as mesmas de um pintor, escultor ou de um músico. Quando suas coleções se destacaram nos anos 20, os críticos o distinguiam dos outros estilistas por seu approach com as artes e design.

Charles James, designer de moda americano da metade do século XX, sempre promoveu o seu trabalho como arte. Também, designers como Charles Frederick Worth – cujo estilo pessoal o fazia lembrar à um Rembrandt boêmio – soube considerar as vantagens de associar a moda com a arte. Isso é especialmente notável em colaborações entre casas de moda e artistas contemporâneos à época, tais como Poiret/Dufy, Schiaparelli/Dalí, Tracey Emin/Longchamp, Louis Vuitton/Takashi Murakami, Miyake/Cai Guo-Qiang.

À princípio com Duchamp e depois com Warhol, os parâmetros tradicionais do que constitui uma obra de arte começaram a erodir, ou, melhor, a se expandir. E isso beneficiou a moda. As demais dissipações dos limites entre a moda e a arte começaram a ocorrer só recentemente. Quando artistas multidisciplinares como Cindy Sherman, Judith Shea, Joseph Beuys, Barbara Kruger, Jim Dine e Richard Prince, citam em suas obras imagens relacionadas à roupa, a moda começa a ser vista como objeto de consideração intelectual.

Os designers de moda, principalmente aqueles que apresentam trabalhos mais conceituais nas passarelas – ao invés do comercial cotidiano – também começaram também a ser enxergados sob a ótica da produção artística.

INGRID MIDA: O que você acha do comentário de Matthew Teitelbaum (curador de arte, diretor e CEO da Art Gallery of Ontario – Canadá), a respeito da importância do designer de moda ter de se engajar na comunidade artística, para ser considerado como tal?

HAROLD KODA: Quero deixar claro que, assim como, por exemplo, nem todas as fotografias são consideradas arte, nem toda moda é arte. O que constitui um importante trabalho em cada campo não é necessariamente estabelecido pela intenção de seus criadores ou, de fato, a razão de sua criação. Apesar de estilistas declararem explicitamente que seu trabalho é inspirado, de alguma forma, nas artes – o que torna mais fácil de isolar suas obras de um trabalho mais comercial – essa simples intenção não o torna um artista.

Dois grandes artistas do século XX foram Madeleine Vionnet e Cristóbal Balenciaga. Mas nenhum dos dois teve a arrogância de dizer que criava arte: Vionnet sempre se descreveu como uma simples costureira. Entretanto, qualquer um com conhecimento do métier da alta costura pode reconhecer em Vionnet uma virtuose – inovou com o corte em viés e elegância estética.

E a investigação de Cristóbal Balenciaga com relação aos códigos tradicionais de alfaiataria resultaram em formas esculturais de refinamento sem precedentes. Todas as suas roupas foram criadas para serem vestidas – nunca com a finalidade exclusivamente artística.

Assim, eu acho que mesmo privados de cultura, política, economia ou gênero narrativo, alguns estilistas transcendem o pragmatismo e a função básica da vestimenta para alcançar algo maior, como fazem os grandes artistas.

INGRID MIDA: Você acha que curadores desempenham papel significativo nessa definição da arte no trabalho do estilista? Quer dizer, o curador pode escolher incrementar a mostra com luz, som, video, dispor por temas ao invés de datas, selecionar manequins justamente para elevar a apresentação à categoria de instalação de arte?

Savage Beauty - a exposição de McQueen no MET, em NY. Foto reprodução (via http://culturereport.wordpress.com)

HAROLD KODA: Curadores podem desempenhar, sim, o estabelecimento de certos designers de moda como artistas exemplares. Para uma atuação bem sucedida, como curador, é exigido um conhecimento especializado no assunto, com um nível de expertise e discriminação associado a ele. Mas é no isolamento de um design individual ou nos trabalhos selecionados de um designer – através da edição – que o curador prova o êxito artístico do estilista.

A tentativa de valorizar um trabalho, simplesmente, através de técnicas de instalação, pode ser um tipo de subterfúgio. É possível, mas no final o que importa é o objeto. Os curadores não são artistas de instalação, onde o trabalho do outro é reduzido a um mero componente de sua visão artística ou criativa.

Exposição de Gaultier em Montreal. Ele disse que moda não pode ser considerada arte. Sobre isso, leia aqui. Foto de Jerry Pigeon, via fashion4fun.com.br

Talvez isso possa parecer uma abordagem subjetiva mas, no entanto, existem casos em que um curador enxerga um projeto como algo conceitualmente ou culturalmente mais rico em significado do que o próprio criador da peça a ser exibida. Às vezes, um projeto pode ser incrementado com uma ressonância muito mais estética, intelectual e emocional daquela que seu criador imaginou. Para colocar tal objeto no contexto de um museu, as sugestões de exposição do curador me parecem legítimas.

INGRID MIDA: A moda é, de longe, bem mais acessível para a maioria das pessoas do que a arte contemporânea. Você acha que isso é um dos motivos pelos quais as as exposições de moda nos museus esteja, atualmente, tendo tanto êxito e popularidade?

HAROLD KODA: Eu tenho observado que, não importa o quão receptiva a audiência é com os trabalhos de um pintor ou escultor, a reação nas galerias é, geralmente, uma reverência silenciosa, onde a reação é sussurada. Nas galerias de costumes, ao contrário, os comentários são articulados mais livremente, num tom de conversa.

A razão para isso poderia ser, pois, como se trata de roupa – mesmo sendo uma vestimenta da corte francesa do século XVIII, ou mesmo de um item da alta costura -,  as pessoas sentem-se mais à vontade para emitir suas opiniões, baseadas no seu próprio conhecimento do que significaria vestir-se todos os dias pela manhã.

No Museu, as galerias do Instituto de Vestuário não são fáceis de se encontrar. (…) Nossos números de espectadores estão entre os maiores de todo o museu, o que sugere a popularidade das nossas coleções. (…)Talvez pelo fato de que a roupa é capaz de representar uma miríade de assuntos que tem relevância direta na nossa vida, além das identidades que construímos e convencionamos para nós mesmos.

……

Ingrid Mida´s blog: http://fashionismymuse.blogspot.com/

Ingrid Mida´s website: http://web.mac.com/ingridmida/Site/Ingrid_Mida.html

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