BEST SELLERS: VENDEM MAIS PORQUE SÃO FRESQUINHOS OU SÃO FRESQUINHOS PORQUE VENDEM MAIS?

Refletindo sobre a lógica do sucesso de vendas de certos títulos de livros, elevando-os (humm…) à categoria de best-sellers, encontrei-me com o pensamento metido naquele delicioso aforismo do biscoito Tostines (sacada de gênio da publicidade, sim ou com certeza?):

– vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?

Domingo, 26 de agosto de 2012. Estou na praia de Santa Eulalia del Rio, pacato pueblo de Ibiza, Espanha. Três jovens inglesas à minha direita (noto logo o sotaque), lêem – oportunamente, talvez, pela formação numérica do grupo – a trilogia “Cinquenta Tons”, de E.L. James, cada uma com um exemplar da sequência, num momento distinto de seu próprio livro.

Eram 15h e o trio entretido disputava o espaço da sombra restrita de um guarda-sol disponível – se bem que a intenção era apenas proteger a cabeça e a leitura, enquanto o corpo seguia queimando pelo sol forte. Valia uma foto indiscreta, que eu não fiz.

Era bem isso, no entanto, com 3 pessoas. Imagem reprodução.

Ainda pensando nessa cena, já à caminho de casa, ao passar em frente às duas livrarias situadas ao longo do trajeto, em pontos não muito distantes entre si, vejo nas suas vitrines a bendita trilogia novamente, agora, em versão castelhana e catalã. E não foi que, ao ligar o computador horas mais tarde, lembro-me do depoimento de uma amiga jornalista à respeito do livro, via facebook, dias antes:

Imagem reprodução.

– “Pura sacanagem british” – e eu, aqui, pondero: terá sido esse o motivo das inglesinhas tão entretidas no assunto? Além disso, segundo minha amiga, publicação “amadora” e “mal escrita”. Assim, em lugar de jogar fora (“isso não se faz”), ela preferiu abandonar o livro à sua própria sorte, em algum “ponto estratégico” de São João del Rey, Minas Gerais. Quem sabe serviria para alguém… pois sempre serve.

Eu, igualmente movida pela curiosidade com o tal fenômeno de vendas – 34 milhões não é cifra pouca -, porém, não tão ousada quanto ela, terminei apenas lendo a entrevista com a autora. O suficiente para saber que não queria comprar o livro.

Romance sado-maso inspirado na saga Crepúsculo? Não, obrigada. 

Século XIX. Napoleão Bonaparte censura artigos contra a sua política nos jornais da época, na França, abrindo espaço para uma literatura light, de linguagem rasa e  baseada em “ganchos”, que atraiam os leitores para as próximas edições do diário. Eram publicados nos rodapés e Alexandre Dumas, por exemplo, teve um livro editado com a compilação de suas histórias veiculadas por esses feuilletons.

O fato é que, de Agatha Christie ao Paulo Coelho, muitos autores enveredam por esse modelo de audiência garantida. Alguns são realmente bons, outros, nem um pouco. É assim, a coisa toda do sucesso da maioria dos best sellers não reside exatamente no conteúdo, mas na forma. O que garante a audiência é a linguagem e o formato, cuja fruição é tão tranquila quanto a de um filme dublado ou de uma telenovela.

Quanto mais clichês ali estiverem, talvez, mais alto o posto na lista dos mais vendidos. E quanto mais alto o posto nessa lista, mais ainda o grande público se interessa pela leitura. É a tal história do Tostines. O que eles não sabem é que, apesar de alguns títulos como Senhor dos Anéis, de Tolkien, mereçam, sim, ter entrado para a história como um dos mais vendidos do mundo, de todos os tempos, outros, no entanto, não passam de manobra de marketing da indústria cultural para seduzir um rebanho atrás de “comprar” a sua própria “cultura”.

Valor declarado e valor verdadeiro, você sabe aferir?

Para quem gosta de enxergar sempre um lado bom em toda história, essa literatura de massa, no entanto, funcionaria  – segundo alguns teóricos –  como um degrau para livros mais eruditos. Ou seja, não seria, de todo, tão mal assim para as inglesas da praia de Ibiza, caso o background das moças fosse formado apenas por livros do gênero. Quem sabe o hábito da leitura ali adquirido, não as encaminhasse para um patamar, digamos, mais complexo?

Antes dos best sellers, havia uma outra consciência da relação homem-livro. Primeiro, a edição de uma obra era coisa cara e difícil. Segundo, a distribuição era complicada, haviam poucas livrarias espalhadas por aí. As pessoas tinham, a rigor, poucos livros em casa, o que tornarva a leitura não um hábito descartável – como tudo nessa sociedade de consumo pós-moderna. Mas reiterado, analítico, reflexivo. 

Pois, se a leitura é hermética, porque não ler mais de uma vez, até que seja entendida? Só não podemos esquecer que, algumas vezes, a busca é pelo entretenimento pura e simplesmente… ok, que seja de fácil leitura, mas, no mínimo, bem escrito e interessante, com algum desafio. Não uma auto-ajuda de pensamentos prontos que te leva ao nada.

Assim, o seu post “sou inteligente”, no Facebook ou Twitter, indicando esses tipos de livros – ou um “instagram” de uma pilha (de dois, segundo a triste estatística brasileira) deles, lidos ao longo do ano – pode não ser um marketing pessoal tão bom assim. Mas sobre essa nova moda de ser cult, inteligente, via redes sociais, hablamos outro dia.Vale?

Sim, isso foi um gancho.

para saber mais
cultura e mercado: o best seller em questão – Fernando moreno da silva http://migre.me/as1C0
Literatura de Massa e mercado – gláucio aranha e fernanda batista http://migre.me/as1EJ

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One thought on “BEST SELLERS: VENDEM MAIS PORQUE SÃO FRESQUINHOS OU SÃO FRESQUINHOS PORQUE VENDEM MAIS?

  1. O raciocínio (ou melhor, divagação) serve para as (pseudo) biografias, sejam em livros ou filmes. Perdem a razão de ser com o próprio lançamento.

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