HISTÓRIA DOS CALÇADOS OU DE UM PAR DE SAPATOS

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“Garoto austríaco ganha sapatos novos durante a Segunda Guerra Mundial”. Fonte: http://bit.ly/1ccXut8

Queixei-me de calçados. Ou da falta deles. Ouço um choro agudo e vem à minha frente/fronte uma Avenida Rio Branco (Juiz de Fora, MG) infinita para a minha pouca idade – talvez três – e a escolinha que diariamente me acolhia: Cantinho Feliz. Sou eu mesma quem chora.

Era feliz mesmo aquele pequeno canto, mas esse dia tão específico foi triste. Num relance e eu me dei conta – ao deparar com os pés do coleguinha ao lado -, que eu esquecera do meu par de chinelos na praia nessas férias de 84. Eu não, meus pais, bem entendido. Eram uns chinelinhos brancos de tiras vermelhas, mesma cor dos elásticos que seguravam firmes os meus calcanhares para não escapar a caminhada amadora dos meus poucos anos de vida.

Como resolveu-se esse imbróglio já não me lembro, talvez com a compra de algum outro par de calçados que substituísse essa minha falta. Pois ela sempre existe. Existe consumo porque nos falta qualquer outra coisa. Nem que seja um par de chinelas de tiras vermelhas aos três anos de idade.

Do paleolítico ao Google, ao vô Nilton.

O homem passou a utilizar calçados para proteger-se, coisa conferida sempre às mais altas castas. Do paleolítico (coisa pouca de dez mil anos) aos vestígios dos hipogeus – câmaras egípicias de enterros múltiplos -, que já faziam menção aos calçados, mostrando ilustrações que representavam a preparação do couro para a confecção dos tais acessórios para os pés.

Raleza dos pisantes que se confirma com o filme que embalou alguma das minhas madrugadas depois de noites regadas à whisky com Red Bull na pista dos vinte e poucos anos – porque essas pérolas só passavam nesse horário (5h) eu também não sei. “Filhos do Paraíso” era o nome – obrigada, Youtube. Me lembram daquela época onde se obter calçados não era coisa fácil em nenhuma das culturas. Hoje, com H&M e seus derivados já nem tanto, eu diria.

E uma busca pelo Google com “calçados, irmã, índia” (why god?) me renderam o link certo:

“Ali, como eu vou para a escola amanhã sem os sapatos?”

E o filme é iraniano…

Nossa relação com os calçados também poderia nos transportar para o Brasil pós Lei Áurea, quando apenas os escravos libertos poderiam usar sapatos. E os carregavam debaixo dos braços como um troféu, para confirmar isso.

Hoje eu me pergunto porque eu quero mais de um par. Vocês também não saberão dizer. Talvez porque, lá no fundo, desejamos ser rainhas. Homens ou mulheres.

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©Reprodução

Quem sabe?

—–

UPDATE >>>

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Uma foto de família: meus bisavós paternos com a sua prole. O menino da extrema direita é meu avô Nilton, enfezado, segundo meu pai, por ter de fazer a foto descalço. Em Pirapetinga, MG, ele tinha aproximadamente cinco anos. E ainda não tinha sapatos.

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