O SPORNOSEXUAL, O MENSWEAR E A AMBIVALÊNCIA

David Beckham

Há algum tempo o menswear resolveu atender, de fato, aos apelos metrossexuais dos garotos da década de 90 (quando esse termo foi cunhado) e promover para si, um upgrade fashionista digno do guarda-roupas das mulheres.

Vimos diferentes apostas nesse território: novas estampas, novas propostas de tecidos, cores, volumes, recortes – antes apenas experimentados nas cartelas femininas – ganharem as passarelas e as ruas de verdade, vestindo os meninos mais descolados do pedaço. Se bem que todo esse avanço pudemos conferir, de uma forma mais abrangente, apenas na virada da primeira década dos ’00. Mas tudo bem.

Agora, com os jogos da Copa do Mundo 2014, tive a notícia (via Daily Telegraph) de um novo rótulo para certo estilo de ser humano, o spornosexual, mais concentrado ainda no seu visual – e no seu corpo, principalmente. Uma espécie de metrossexual mais obcecado com aparência do que nunca – se é que isso era possível.

Foi. E me pareceu num primeiro momento uma contra-corrente da geek revolution que estava até agora dominando o cenário: as crianças da geração high tech preocupadas com a programação de seus gadgets e os jovens tecnofilistas portadores de uma camiseta com estampa engraçadinha e óculos de grau com aros grossos, cederiam lugar para homens em seus six pack abs talhados com nada além de muito treino e whey protein. E, caso a conta bancária permita, carregando uma bag Louis Vuitton (longe de fazer parte, em 2014, apenas da with list feminina) t-shirt e sneakers Givenchy ou um bom terno Tom Ford.

Esse movimento de negação de uma tendência por sua subsequente funciona sim como teoria e a prática está aí para comprovar. Foi assim nos anos 60, 70, 80, 90… mas se a palavra de ordem para a moda é remix nesse século XXI, me lembrei também da ambivalência, para esse nosso dicionário fashion.

Ela produz uma sensação de diversidade e ambiente democrático, ainda que seja, digamos, aparente. São como conflitos convivendo em alguma harmonia, mal comparando, geeks e spornosexuais como faunas de um mesmo ecossistema. Eu disse aparente pois, como opina Jeremy Lewies, editor da mag independente Garmento para o Business of Fashion de 17 de junho de 2014, “o arquétipo clássico masculino, que sempre foi misógino, sexista e sutilmente fascista entrou em decadência ao longo dos últimos 20 anos” – e eu pergunto, será?

Uma pausa para colocar o que um importante professor da UFMG me disse, certa vez numa entrevista, que deveríamos tomar cuidado com essas generalizações para evitarmos um clima de superação e situação resolvida – coisa que não aconteceu nesse caso, por exemplo. Homens machistas ainda existem e, infelzmente, somando um número bastante expressivo.

Lewies diz que essa abertura para um homem que pensa em se vestir bem, com cuidado com o seu visual – coisa que tradicionalmente pertencia ao universo feminino – seria justamente reflexo dessa mudança de comportamento. Bem colocado. Mas e se o spornosexual é o perfil exacerbado de um metrossexual – e a sua casca é a preocupação maior e final -, basta pensar num jogador de futebol que se preocupou com o seu penteado e a cor das suas chuteiras numa partida vai poder proporcionar em campo. A forma em detrimento do conteúdo? Ou isso não tem lá muito a ver com essa história toda? Hum.

Bom mesmo para todas as marcas masculinas nesse terreno de ambivalências. No final do jogo somos todos consumidores ou só somos consumidores o tempo inteiro nessa religião capitalista? Para elas, as marcas, essa pluralidade de cenários e conflitos vai forçar a abertura do leque de algumas delas? Ou então, mais marcas ainda vão surgir para atender a tantos grupos que já não desaparecem, mas convivem lado a lado, ora se sobrepondo, ora não. Mesmo um único indivíduo, sendo um dia geek, noutro sporno. Isso e aquilo. Enfim, o que se quiser ser.

Mas se nós nos permitimos, as marcas terão de rebolar num futuro próximo para realizar os desejos desse perfil cambiante de cada um, um estilo por dia. Um dado momento em que só o generativo e o randômico vão atender às nossas expectativas, tomara – seres humanos sedentos pelo inusitado todos os dias e isso vai além do consumo. Sobre esse advento dei uma pequena dica aqui, em Futurologia 2.

Em tempo: muitas coisas legais rolando na temporada masculina internacional, inverno 14/15. Até o momento, olho em JW Anderson (em Londres) e suas propostas do feminino para o masculino. Olha nós aí, consumidores outra vez.

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