ENTREVISTA – ALEXANDRA CABRAL

O uso de tecnologia em moda requer trabalho em equipe multidisciplinar, essa é a imposição das tecnologias vestíveis. – Alexandra Cabral

Alexandra Cabral tem 37 anos, é portuguesa de Beja e atualmente vive em Lisboa. Mestre em Design de Moda, terminou Estudos Avançados em Design e desenvolve Doutorado em Design na área de figurinos, na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa, onde também é Professora Assistente Convidada. É mentora da agência de branding NAU, em São Paulo e conta, ainda, com uma coleção no acervo do Museu de Arte Contemporânea de Casoria, em Nápoles (Itália) e recebeu o prêmio nacional português para Jovens Criadores, em 2003.

Conheci a designer e seu trabalho via Facebook, há algum tempo, por nossa afinidade de pesquisas relacionadas a moda e às artes. E decidi agora bater um papo com a moça, sobre seus estudos recentes, que incluem a execução de um figurino para o espetáculo Epidemia, em 2014. Gosto de promover links diferentes dos convencionais e sempre acreditei que figurinos fossem uma excelente área de atuação para os novos talentos em design de moda. Mais ainda, quando associados à pesquisa tecnológica. E considero que Alexandra seja um belo exemplo, para inspirar e prestar atenção.

De que forma a interseção entre a moda e a tecnologia faz parte do seu campo de estudo?

Ambas fazem parte das minhas pesquisas, no âmbito da sua relação com o corpo no seu caráter somático, na área dos figurinos. Tenho um interesse particular em explorar o potencial dos têxteis funcionais relativamente à comunicação, na perspectiva da performance artística e não do “gadget”, com funcionalidades associadas. É a isto que me dedico atualmente, na minha investigação de doutorado. O uso do corpo como meio de expressão e da mente, enquanto força motriz, deveria, conceitualmente, tornar as tecnologias vestíveis “transparentes”. Ou seja, que não nos déssemos conta delas, por estarmos verdadeiramente imergidos no enredo que elas proporcionam obtendo uma fruição artística mais plena. Depois, focando a questão da moda, há todos os atributos relacionados com a sua leitura coletiva, isto é, com as suas qualidades antropológicas, culturais e sociológicas, que não podem ser ignoradas, pois um figurino normalmente condensa-as. O desafio, no meu ponto de vista e interesse particular, está em ligar tecnologia e moda neste campo de estudo.

Encenação de David Silva. Com Carla Castanheira e Sandra Maya, design de luz de Paulo Santos. Imagem ©Pedro Santos.

Gostaria, se possível, que você descrevesse detalhadamente o figurino criado para o espetáculo Epidemia.

A peça de teatro com autoria de David Silva, exibida em 2014 pela Seara – Companhia de Teatro de Beja, falava da nossa dependência de aparatos tecnológicos, aparentemente desenvolvidos para nos aproximarmos uns dos outros, mas que acabam por nos afastar. Ironicamente, não foi introduzida tecnologia no design dos figurinos para o espectáculo, embora a relação criada entre eles e o espaço cênico, através do design de luz de Paulo Santos, tenha contribuído para uma percepção tecnológica do vestuário, devido aos reflexos e aos contrastes entre translúcido e opaco. Utilizei apenas organza e cetim, estruturados por barbatanas! Penso que criamos a tal transparência necessária, sobre a qual falava anteriormente, pois a percepção do público foi a de estar perante dois gadgets eletrônicos (celular e tablet), também devido ao contexto recriado. É também necessário avaliar a inclusão das tecnologias no vestuário, pois corremos o risco de obtermos resultados gratuitos e desinteressantes. Há também outros fatores a considerar, tais como recursos financeiros e tempo e, neste caso, os figurinos foram concebidos e confeccionados em menos de um mês. Além disso, há de se levar em consideração que o design de figurinos tecnológicos tem de contar com a disponibilidade dos atores para participarem do processo, pois deverão posteriormente manipulá-los como uma segunda pele. E isso sem contar com a eventual participação de engenheiros na construção das peças. Seja como for, o meu objetivo a curto prazo é, obviamente, vir a fazê-lo, mas penso que é necessário obter premissas que o sustentem, através de experiências de design exploratório, como tenho feito.

2015 foi anunciado como o ano das tecnologias vestíveis. Em Portugal, quais são as reais oportunidades nesse campo de estudo para os criadores recém-formados em moda? Quais as dificuldades encontradas para quem quer desenvolver uma moda que converse com outras disciplinas?

Não sei defini-las bem nem quantificá-las, mas sei que estão a surgir, pois o assunto é emergente. Escolhi esta área de estudo para o doutorado, precisamente por me perguntar o mesmo que me está a perguntar agora. Como poderia desenhar com o recurso da tecnologia, não estando ligada à Academia, ao tecido empresarial, aos especialistas e aos engenheiros têxteis? Comecei por pedir orientação científica a uma engenheira têxtil, a Professora Doutora Manuela Cristina Figueiredo. Esta área do design é complexa, pelo fato de que existe um fosso entre designers e engenheiros, ou seja, é urgente incutir a perspectiva do designer na área da engenharia e vice-versa, mas de um modo sustentado. Com o uso de tecnologia em moda, o trabalho tem de ser em equipe multidisciplinar, é essa a imposição das tecnologias vestíveis. É como juntar arte e ciência. E isso nem sempre é possível ou exequível, pois exige, além do investimento em materiais de última geração, a disponibilidade para um design em colaboração. Como acontece com o design de um smartphone, por exemplo. Portanto, eu mesma estou tentando trilhar esse caminho, estabelecendo parcerias no meio, tendo à disposição instituições como a Universidade do Minho, o Centro Ibérico de Nanotecnologia, o Citeve ou o Instituto Superior Técnico. Voltando à sua pergunta, a dificuldade não está tanto em a moda conversar com outras disciplinas, pois já o faz sem se dar conta disso, porque normalmente os designers de moda são também um pouco artistas e conseguem até fazê-lo sozinhos. Acontece que quando esse diálogo envolve moda e tecnologia, o caso muda de figura, é mais difícil, mas não é impossível. Em contrapartida, pode até potencializar o cruzamento de disciplinas e autores, acompanhando o desenvolvimento de interfaces de tantas outras áreas, entre elas a música ou o vídeo. Neste momento, o segredo está em saber equilibrar as premissas conceituais para o cruzamento dessas disciplinas com o modo como nos projetamos enquanto indivíduos, nesta época de transição em que a tecnologia é para nós um vício, mas que pode vir a fazer parte de nós, num ápice, de um modo inimaginável.

ALEXANDRA CABRAL_ colaboradora_design

Alexandra Cabral - Mais do seu trabalho em: http://costumedesignphd.wix.com/performance-art
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