SXSW 2015 E A NOVA ESTÉTICA

Começou ontem, 13, o tradicional festival SXSW em Austin, Texas. Lembrei-me, então, da entrevista que fiz com uma “figura fácil” do evento – Bruce Sterling – para uma matéria sobre a Nova Estética, publicada pela Revista F. Cultura de Moda #7.

Isso foi há três anos. Mas achei bem atual o assunto, além das circunstâncias, assim como esse post que veio antes da matéria abaixo. A moda, em 2015 – e como já anunciada para 2016, depois das temporadas internacionais que acabaram de acontecer -, continua a viver o passado. Anos 70 e 80 serão o tema maior, respectivamente. E por quê?

Já pensei em diversas alternativas de respostas para essa dúvida e, atualmente, imagino que faltem – para aqueles que insistem nesse throwback incessante -, ferramentas ou pensamentos adequados para seguir adiante.

Pessoalmente, acredito que interdisciplinaridade é a palavra-chave. Só agulha e linha não fazem a moda do futuro, não. O conhecimento e o fazer em redes é o que vai fazer desenvolver novas estéticas, soluções, pensamentos que gerem trabalhos que sejam visualmente agradáveis, com formas ousadas e desenvolvimento inteligente. Roupas que pensam.

Mas vamos à matéria. Até sobre o movimento Abravana, do artista brasileiro Ricardo de Castro, Bruce Sterling falou. Muito bacana, confira:

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Peça assinada pelos designers Mike Simonian and Maaike Evers, Stolen Jewel explora o virtual e o tangível. Eles "roubam" na web imagens das joias mais caras do mundo e imprimem, em baixa resolução, no couro.

“Apesar de ser um público chic, trata-se de um visual retrô, nada futurista. Eu sugiro, para o próximo ano, que as pessoas se arrisquem numa versão mais glitchcore, robótica, das suas roupas” – disparou Bruce Sterling, provocando sua audiência na edição 2012 do festival South by Southwest (SXSW), que, anualmente, reúne conferências sobre interatividade, música e filmes, em Austin, Texas.

Sterling é escritor e nome popular entre os iniciados no mundo digital geek. Foi um dos criadores do gênero cyberpunk, nos idos da década de 80 e, atualmente, é editor do blog Beyond the Beyond, da revista Wired – publicação especializada em tecnologia.

Se ele entende de moda? Provavelmente, não como uma editora da Vogue, mas, sem dúvida, como coolhunter de novos cenários, culturas – e nome de peso para analisar essa tal nova configuração visual contemporânea, batizada “Nova Estética” pelo escritor, editor e artista baseado em Londres, James Bridle.

“A Nova Estética está preocupada com a experiência da vida, em um mundo onde não existem limites entre o digital e o físico” – afirma Bridle, em entrevista exclusiva. “Ela está interessada em efeitos estranhos, na vertigem da rede, nas mediações da máquina, e é produzida por uma sobreposição cada dia maior entre cultura e tecnologia.”

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James Bridle. ©Tristan Pfund

Segundo Bridle, a NE não é um movimento artístico, mas um efeito da convivência do homem com dispositivos tecnológicos no universo. “Não é algo que os artistas possam fazer, ainda que eles possam ser influenciados por ela” – explica. Já Sterling, em recente ensaio sobre o tema, aponta que, assim como ocorreu com os vanguardismos de todas as épocas, a sociedade demora anos para entender o que está acontecendo e recuperá-lo como estilo.

“Em 2012, blogs premonitórios. Em 2022, coffee-table books”. Mas Bridle é enfático ao afirmar que, ao categorizar a Nova Estética como um movimento, fundamentalmente, perde-se o foco. “O uso da palavra ‘estética’ foi um acidente, mas os artistas não conseguem entender isso”, lamenta.

PARA FRENTE É QUE SE OLHA

O jornal Business of Fashion pergunta se a moda estaria, de fato, preparada para essa tal Nova Estética. Os bigodes dos meninos, suspensórios ou as saias rodadas e de cintura marcada das meninas são frequentes leituras de looks vintage, vistos em alguns dos locais mais fashion forward de que se tem notícia, no mundo: de Shoreditch, em Londres, Mitte District, em Berlim, a Manhattan, em Nova York.

“Certamente o mainstream não está preparado” – diz Sterling. “E, honestamente, eu provoquei minha audiência no SXSW, pois estou cansado dessa falta de imaginação. Nós podemos até estar passando por uma longa crise, mas não significa que nós tenhamos de nos vestir da mesma forma que em 2007”, declara, com exclusividade.

Onde houver satélites, fotos de smartphones, cobertura wi-fi, photoshop, imagens digitais processadas, arquivos corrompidos (glitches), pixels, 3D, realidade aumentada, câmeras de vigilância, linguagens de programação – haverá uma manifestação da Nova Estética.

Assim, durante sua pesquisa a respeito do tema, em 2011, James Bridle reuniu, em um tumblr (http://new-aesthetic.tumblr.com), vários visuais baseados nessa interação do homem com os universos digital e físico. No lote, exemplos de como a moda está expressando a Nova Estética revelam, de certa forma, alguma manifestação de mudança nesse cenário empoeirado.

Para Bridle, a NE produz “sangramentos” ocasionais na moda, o que pode gerar resultados interessantes. Como exemplo, temos estilistas do calibre de Gareth Pugh, Iris Van Herpen, Christopher Keane, Martin Margiela, Benhard Willhelm – e mais um grande leque, que você pode conferir também no board NAFashion, do Pinterest de Chris Heathcote – indicado por Bruce Sterling.

Na verdade, Sterling afirma que não tem tal pretensão – a de que as pessoas se vistam como os exemplos de Heathcote. Ser diferente é o que importa: “Já ficaria satisfeito se eles fossem para o festival, ano que vem, vestidos como os Abravanistas, de São Paulo” – brinca. “Agora, se eles usassem os calçados Melissa, realmente, seria um grande avanço”, conclui, mostrando que entende tudo da Nova Estética na moda brasileira.

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