IL CRUDO

Lévi-Strauss pensou a antropologia dos ameríndios a partir de uma das oposições mais básicas da vida, o cru e o cozido – uma das ferramentas que serviriam, ao fim e ao cabo, para estudar os mitos fundadores de todos os povos. Eles que, desenvolvendo suas primeiras ferramentas e depois delas, portanto, o seu próprio cérebro, tornaram-se capazes de cozinhar seu alimento e perder menos tempo digerindo tantas carnes cruas para degustar, então, o pensamento.

Lançando o anzol para buscar esse peixe, veio a rede: estamos em 2015 e as raw images digitais povoam os discos duros cada vez mais soft’n’easy de se carregar. Não como baguetes, bem entendido, mas quase do tamanho das pílulas sublinguais, que nos transportarão num futuro, em segundos, para o universo dos wireframes. É de lá, do mundo binário, que elaboro os links que seguem.

O cru de todas as coisas carrega em si as informações mais elementares para se constituir como tal. É a parte do todo que, como parte é todo, poderia filosofar Gregório de Mattos. Ou fazer poesia. É que o detalhe ali é complexo até um certo ponto, essa é a sua beleza.

Parto, então, da nova estética da triangulação de Delaunay – que já nem é tão nova assim, depois que caiu na regra de três das modas e em todos os lugares você pode encontrar um visual quem lembram prismas. Da identidade de uma empresa local, a uma multinacional, ou estampada em camisetas. Eis a matrix.

Na verdade, é esse o “esqueleto”, de todas as imagens em três dimensões, a sua versão mais crua. E será que nós também somos assim, por dentro? Foi Boris Delaunay, quem inventou e batizou esse tipo de esquema, partindo de quatro pontos num círculo para chegar à sua condição tridimensional, considerando os círculos, esferas. E desde 2012, foi entendido como uma estética do novo milênio. E as reproduções da moda se sucederam.

O fato é que, para fazer um upload dessa versão estética triangulada, talvez fosse mais esperto partir para o visual dos hexágonos, que segundo o matemático Georgy Voronoi, pode ser encontrado em diversos campos da ciência e da tecnologia. De porcelanatos e cerâmicas como tendência na última Expo Revestir de São Paulo, em março de 2015, às estruturas celulares: a natureza nos prova que a melhor maneira de se preencher um espaço vazio é com estruturas sextavadas. E o leitor sabe o que é mais bonito? É que esse visual também é conhecido como tesselatura. Sim, como nos tecidos.

Se a moda do futuro não é feita com agulha e linha, mas com softwares, uma impressora e algum aglomerado material – que pode ser atualmente de muitas coisas, vinil, madeira, metal – mas não tecido, nem tratado, nem cru: é o mistério da tecnologia, que coloca a serviço tantas coisas que servem para tanto e, ao mesmo tempo, servem para nada.

As wearables technologies podem não passar de meros gadgets, caros e inúteis, caso algum tutano não seja articulado, nesse terreno onde glamour, ombros de fora e muitas cifras insistem em puxar a sardinha para um mundo que ainda vive de passado, enquanto as possibilidades estão todas aí, em cima da mesa.

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Artigo publicado pela revista Tecnography #2. Baixe gratuitamente clicando aqui.

Crédito da Imagem ©Eric Mueller, com instalação de Trever Nicholas, “Luma (Voronoi Cellscape)”.

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