IRIS VAN HERPEN É A CARA DO FUTURO DA COUTURE PARISIENSE

Moda, novas tecnologias e artesanato na nova Couture 2017 desfilada em Paris, muito bem representada pela holandesa Iris Van Herpen.

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©Team Peter Stigter

O seleto reduto de estilistas e marcas que participam da Alta Costura parisiense já não é mais o mesmo. Desde de que abriram as portas para a exploração da moda e sua relação com as novas tecnologias digitais, a semana ganhou um tipo de atmosfera avant-garde sem precedentes, nesse espaço que sempre esteve em contato com a tradição secular do refinado artesanato dos ateliers de Paris.

Iris Van Herpen é o nome da holandesa que tomou de assalto a Couture da Cidade Luz. Se antes o luxuoso passado das maisons era feito de quilômetros de tecidos finamente rebordados e bem talhados, hoje também se fala sobre o futuro do universo binário aplicado aos tecidos e materiais cada dia mais inovadores, ao menos quando os modelos criados pela designer riscam a passarela.

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©Team Peter Stigert

“Between the Lines” é a nova coleção primavera-verão 2017 apresentada por Iris Van Herpen, no último dia 23 de janeiro. A imperfeição dos sistemas e estruturas dos mundos físicos e digitais era o tema. Nesse universo onde a estética do erro tem sido discutida sob os mais diversos vieses, da arte, à moda, à publicidade e não só, Iris construiu padrões para, em seguida, distorcê-los ou desconstruí-los.

Espaços lineares e contrastes evidentes são a base para os materiais e patterns desenvolvidos para as peças que compõem a coleção, desafiando o espectador a ser “parte do sistema”, mas sempre consciente das suas falhas.

©Team Peter Stigter

Esther Stocker

Uma das coisas que Iris Van Herpen faz questão de ratificar em cada temporada são as colaborações, contaminações e hubs que estabelece, com artistas e profissionais de diversos segmentos.

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“Unlimited Space”, de Esther Stocker. Galeria de Arte Moderna, Roudnice nad Labem, 2013. © Reprodução.

Em “Between the Lines” foi a vez de celebrar a parceria com a artista Esther Stocker, italiana de Silandro atualmente baseada em Berlim, com passagem pelas Academias de Arte e Design de Viena, Brera (Itália) e Pasadena, na Califórnia. Sua estética foi transportada para a cenografia da passarela, provocando uma distorção visual e profundidade de campo geométrica, subvertendo o espaço e estabelecendo uma conexão linear que, na verdade, não existe.

Estética do erro

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©Morgan O’Donovan& Molly SJ Lowe

As distorções criadas por glitches formam a base do processo de criação de “Between the Lines”, construindo um cenário que evidencia a beleza da imperfeição em silhuetas e texturas, numa paleta minimal, nada daquele RGB oitentista dos glitches de vídeos que costumamos ver por aí.

©Morgan O’Donovan & Molly SJ Lowe

Novas técnicas e tecnologias

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©Morgan O’Donovan & Molly SJ Lowe

Novas técnicas e tecnologias incluindo tecidos em poliuretano (PU) pintados à mão com modelagem 3D da estampa através de injeção, além de finos tecidos Mylar expansíveis, cortados a laser, estudo criado em colaboração com o arquiteto Phillip Beesley.

Calçados

Com solado em cobre, em design concretista, os sapatos do desfile foram exclusivamente desenvolvidos com conceito criado em parceria com a designer de calçados Carolin Holzhuber. 

Reparem no gap entre o salto e a plataforma: mais uma referência à falha do sistema ao qual estamos expostos. E se analisarmos a altura proposta para os pisantes, a considerar a altura da queda de quem não estiver consciente dos erros contidos na Matrix.

Mind the gap!

©Reprodução.

***

Ficha técnica de Between the Lines:

Styling: Patti Wilson
Casting: Maida Boina
Make-up: M.A.C. Pro Team
Hair: Martin Cullen
Music: Salvador Breed
including track 'The Statue' by Machinedrum
Collaborating artist: Philip Beesley
Creative consultant: Jerry Stafford
Collaborating installation artist: Esther Stocker
Shoes in collaboration with Carolin Holzhuber
Press release: Eugene Rabkin & Jerry Stafford
Show direction: Kim Vos & Michelle den Hollander | Bdifferent
Show production: SixUp Paris | N6
Light design: Stefan Prokop & Pol van Veen | Jurlights
Video registration: Fabrice Daville | Premices Films
Backstage video: Ryan McDaniels
Frontstage photography: Team Peter Stigter
Backstage photography: Morgan O'Donovan & Molly SJ Lowe
Special Thanks to:
Fédération Française de la Couture
Warren Du Preez & Nick Thornton Jones
Illustration booklet | Alla Polozenko
Davy Hezemans | Spice PR
Debby van Geffen

GIFS ANIMADOS ARTÍSTICOS

O Facebook liberou recentemente a presença de gifs animados em sua timeline – já sucesso em plataformas como o Tumblr, por exemplo. E, ao contrário do que imaginavam, um overflood de gatinhos fofos e glitterados, postados pelas nossas queridas tias e à la Orkut, os gifs estão cada vez mais criativos. Eu diria, até, cada vez mais artísticos.

Foi lá no Tumblr mesmo que adquiri o gosto pela imagem com esse sutil movimento. A maioria é um fragmento de vídeo pré-existente em looping, um cut debochado, divertido. Conhecem a série de gifs de cenas dos filmes do Kubrick? Genial.

Voltando à categoria arte, é notável e emocionante o novo projeto ÍNSULA, um set assinado pelo artista chileno Jon Jacobsen em colaboração com o fashion artist colombiano Daniel Ramos Obregón.

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ÍNSULA

Projeto colaborativo entre Jon Jacobsen e Daniel Ramos Obregón.
Modelo e bailarino contemporâneo: José Tomás. Imagens via Behance.

O modelo, o bailarino José Tomás Torres, foi descoberto e convidado, via Facebook mesmo, a participar do projeto. A ideia central da obra é evocar a “metamorfose de um corpo dilacerado por suas projeções internas”, como explica Jacobsen ao The Creators Project.

Ou um verdadeiro conflito entre os avatares que disponibilizamos nas redes sociais e nós mesmos, na vida real. Angustiante tensão entre o ser e o não ser. Simulacro e simulação.

Carrega consigo, ainda, a ideia das próteses tecnológicas que já habitam nossos corpos: móbiles, tablets e computadores, nos transformando em andróides. Ou, segundo o artista, o Homo Sapiens Digital.

Jacobsen explica, em seu portifólio, que Ínsula expõe a nova realidade em que vivemos: nos relacionamos com o mundo através de avatares e alter-egos feitos de imagens, textos e códigos.

O artista ilustrou as fotos com o bailarino e as transformou nos gifs a fim de aproximar seu trabalho das pessoas, também através do universo da tecnologia: “é um modo contemporâneo de se comunicar, de forma íntima, parecido como a troca que acontece com a palavra escrita”, afirma.

Ínsula foi apresentado esse ao no Quartier Général Centre d’art Contemporain em La Chaux-de-Fonds, Suíça, come parte del programa da mostra Monsieur L’ordinateur.

SXSW 2015 E A NOVA ESTÉTICA

Começou ontem, 13, o tradicional festival SXSW em Austin, Texas. Lembrei-me, então, da entrevista que fiz com uma “figura fácil” do evento – Bruce Sterling – para uma matéria sobre a Nova Estética, publicada pela Revista F. Cultura de Moda #7.

Isso foi há três anos. Mas achei bem atual o assunto, além das circunstâncias, assim como esse post que veio antes da matéria abaixo. A moda, em 2015 – e como já anunciada para 2016, depois das temporadas internacionais que acabaram de acontecer -, continua a viver o passado. Anos 70 e 80 serão o tema maior, respectivamente. E por quê?

Já pensei em diversas alternativas de respostas para essa dúvida e, atualmente, imagino que faltem – para aqueles que insistem nesse throwback incessante -, ferramentas ou pensamentos adequados para seguir adiante.

Pessoalmente, acredito que interdisciplinaridade é a palavra-chave. Só agulha e linha não fazem a moda do futuro, não. O conhecimento e o fazer em redes é o que vai fazer desenvolver novas estéticas, soluções, pensamentos que gerem trabalhos que sejam visualmente agradáveis, com formas ousadas e desenvolvimento inteligente. Roupas que pensam.

Mas vamos à matéria. Até sobre o movimento Abravana, do artista brasileiro Ricardo de Castro, Bruce Sterling falou. Muito bacana, confira:

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Peça assinada pelos designers Mike Simonian and Maaike Evers, Stolen Jewel explora o virtual e o tangível. Eles "roubam" na web imagens das joias mais caras do mundo e imprimem, em baixa resolução, no couro.

“Apesar de ser um público chic, trata-se de um visual retrô, nada futurista. Eu sugiro, para o próximo ano, que as pessoas se arrisquem numa versão mais glitchcore, robótica, das suas roupas” – disparou Bruce Sterling, provocando sua audiência na edição 2012 do festival South by Southwest (SXSW), que, anualmente, reúne conferências sobre interatividade, música e filmes, em Austin, Texas.

Sterling é escritor e nome popular entre os iniciados no mundo digital geek. Foi um dos criadores do gênero cyberpunk, nos idos da década de 80 e, atualmente, é editor do blog Beyond the Beyond, da revista Wired – publicação especializada em tecnologia.

Se ele entende de moda? Provavelmente, não como uma editora da Vogue, mas, sem dúvida, como coolhunter de novos cenários, culturas – e nome de peso para analisar essa tal nova configuração visual contemporânea, batizada “Nova Estética” pelo escritor, editor e artista baseado em Londres, James Bridle.

“A Nova Estética está preocupada com a experiência da vida, em um mundo onde não existem limites entre o digital e o físico” – afirma Bridle, em entrevista exclusiva. “Ela está interessada em efeitos estranhos, na vertigem da rede, nas mediações da máquina, e é produzida por uma sobreposição cada dia maior entre cultura e tecnologia.”

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James Bridle. ©Tristan Pfund

Segundo Bridle, a NE não é um movimento artístico, mas um efeito da convivência do homem com dispositivos tecnológicos no universo. “Não é algo que os artistas possam fazer, ainda que eles possam ser influenciados por ela” – explica. Já Sterling, em recente ensaio sobre o tema, aponta que, assim como ocorreu com os vanguardismos de todas as épocas, a sociedade demora anos para entender o que está acontecendo e recuperá-lo como estilo.

“Em 2012, blogs premonitórios. Em 2022, coffee-table books”. Mas Bridle é enfático ao afirmar que, ao categorizar a Nova Estética como um movimento, fundamentalmente, perde-se o foco. “O uso da palavra ‘estética’ foi um acidente, mas os artistas não conseguem entender isso”, lamenta.

PARA FRENTE É QUE SE OLHA

O jornal Business of Fashion pergunta se a moda estaria, de fato, preparada para essa tal Nova Estética. Os bigodes dos meninos, suspensórios ou as saias rodadas e de cintura marcada das meninas são frequentes leituras de looks vintage, vistos em alguns dos locais mais fashion forward de que se tem notícia, no mundo: de Shoreditch, em Londres, Mitte District, em Berlim, a Manhattan, em Nova York.

“Certamente o mainstream não está preparado” – diz Sterling. “E, honestamente, eu provoquei minha audiência no SXSW, pois estou cansado dessa falta de imaginação. Nós podemos até estar passando por uma longa crise, mas não significa que nós tenhamos de nos vestir da mesma forma que em 2007”, declara, com exclusividade.

Onde houver satélites, fotos de smartphones, cobertura wi-fi, photoshop, imagens digitais processadas, arquivos corrompidos (glitches), pixels, 3D, realidade aumentada, câmeras de vigilância, linguagens de programação – haverá uma manifestação da Nova Estética.

Assim, durante sua pesquisa a respeito do tema, em 2011, James Bridle reuniu, em um tumblr (http://new-aesthetic.tumblr.com), vários visuais baseados nessa interação do homem com os universos digital e físico. No lote, exemplos de como a moda está expressando a Nova Estética revelam, de certa forma, alguma manifestação de mudança nesse cenário empoeirado.

Para Bridle, a NE produz “sangramentos” ocasionais na moda, o que pode gerar resultados interessantes. Como exemplo, temos estilistas do calibre de Gareth Pugh, Iris Van Herpen, Christopher Keane, Martin Margiela, Benhard Willhelm – e mais um grande leque, que você pode conferir também no board NAFashion, do Pinterest de Chris Heathcote – indicado por Bruce Sterling.

Na verdade, Sterling afirma que não tem tal pretensão – a de que as pessoas se vistam como os exemplos de Heathcote. Ser diferente é o que importa: “Já ficaria satisfeito se eles fossem para o festival, ano que vem, vestidos como os Abravanistas, de São Paulo” – brinca. “Agora, se eles usassem os calçados Melissa, realmente, seria um grande avanço”, conclui, mostrando que entende tudo da Nova Estética na moda brasileira.

A NOVA ESTÉTICA

Alexandre Herchcovitch SS2011 em gif de REED+RADER – clique na imagem para ativar.

Eu tenho medo do futuro.

A nostalgia é um sentimento bom.

Junte as duas frases, formadas por sensações diametralmente opostas, e você vai entender – pelo menos em partes – porque a moda ganha, a cada temporada, novos adeptos do estilo da vovó. De criadores a consumidores.

Mas não é mesmo uma delícia esse visual vintage, de cores empoeiradas e estética comportadinha? É sim e somos todos – enquanto filhos desse sistema chamado moda – frutos da vontade de reviver, randomicamente, aquele passado analógico. Como eu disse, a tal sensação é mesmo muito boa. Mais ainda, se assinada por Prada, Marc Jacobs, etc et al.*

Na contramão, quem perdeu o tal medo e foi trabalhar um novo ponto de vista, uma nova forma de ver o mundo – e nesse discurso não só a moda está incluída –  experimenta, agora, novos resultados em forma de estética: e longe de ser formada, apenas, por obejtos pixelados ou estampas 3D.

Vai ser bom viver para ver explodir DE VERDADE uma nova tendência. Depois de tantos anos de colagem do passado no presente para fazer o futuro, “see the world like digital devices” me parece algo, de fato, fresh e muito interessante.**

Você pode até me dizer que isso não seria, cronologicamente, tão novo assim – ok, desde os anos 80, aqui e ali, aparecem visuais como se as máquinas, elas mesmas, fossem as autoras. E muitas vezes são co-autoras mesmo. No entanto, até agora não configurariam um cenário concreto, impulsionando um movimento…

Vamos ouvir muito falar dessa tal NOVA ESTÉTICA, que foi tema de um painel realizado no festival SXSW, em Austin, Texas, esse ano. James Bridle, mestre em Ciências da Computação, com especialização em Inteligência Artificial, foi o “codificador” desse cenário, baseando-se na análise de diversos campos.

James Bridle: http://booktwo.org/

Bridle conclui que essa nova estética não é algo que se possa fazer, ou ser definida exatamente como um estilo. Mas o resultado de um pensamento modificado por essa aproximação do ser humano com os dispositivos digitais.

Eu diria, concordando com Bridle, que a Nova Estética vai GERAR a tendência, assim que um movimento em massa – principalmente através da moda – refletir esses visuais made from technologic thoughts.

Glória Coelho SS2012-13 e Continuum Dress. Binários e processing, respectivamente – o digital no mundo físico. Imagens reprodução.

Alguns estilistas como Gareth Pugh, Iris Van Herpen, fashion imagemakers” como Reed+Rader, ou mesmo aqueles que ainda insistem em utilizar apenas o viés dos pixels impressos, como a Preen RTW SS 2012, já estão por aí fazendo o o digital eclodir no mundo físico. Tem muita gente ainda nessa lista e, por isso, a aposta é que vire tendência mesmo, enfim.

Glitch Textiles, de Phillip Stearns – Erro do vídeo vira o código da trama do tecido. A máquina fala.

Arte generativa, glitch art, processing… Os códigos na moda, literalmente, vejam só.

*Simplesmente sou fã dos estilistas citados, mas vejo – apesar da genialidade de ambos – uma certa insistência em reinterpretar o passado.
** Faça o que eu digo mas não faça o que eu faço: adoro as séries “de época”, fotografias e patterns com estética vintage. Só que eu estou a fim de ver coisas novas na moda. Revirão mesmo.

ESPECIAL CULTURA DA COLAGEM – APROVEITE SEU CAOS

Cortando o presente, o futuro dele se escorre

Daniel Varotto é vídeo-artista, mora em Paris e colabora com a publicação juizforana Duetto Fashion, fazendo fotografia de estilo de rua e, eventualmente, assinando artigos.

Na última edição  – Choque de Criatividade – Daniel desenvolveu o tema central da revista: falou sobre o movimento contra o ctrl+c ctrl+v e puxou uma reflexão, uma fagulha de entendimento, sobre como surgiu essa cultura da colagem que já está totalmente entranhada no nosso DNA.

Ilustrando, uma entrevista exclusiva com o duo Dolby Anol e a moda de c.neeon. Para clicar e ler. Se for copiar e colar :) os créditos são para a www.duettoprodutora.com.br , texto de Daniel Varotto e projeto gráfico de Vinicius Romão, da República Comunicação.