TECNOLOGIAS DOS PROCESSOS PRODUTIVOS DE CALÇADOS NA ITÁLIA

Claudia Cicconi é instrutora de costura na fábrica piloto de Montegranaro.

A Itália sofre de um mal semelhante ao vivido na cadeia produtiva da moda no Brasil: existem hoje verdadeiros buracos em setores técnicos, ou seja, faltam pessoas que saibam construir de fato uma peça de roupa com a maestria dos alfaiates, costureiras, modelistas de longa data ou, no caso do meu objeto de estudo aqui, assemblar artesanal ou industrialmente um par de calçados. E se orgulhar disso.

O boom das faculdades de moda e a glamourização da profissão do estilista pelas revistas parece ter contribuído para que criar uma ideia de que, mais importante do que modelar, cortar e costurar, fosse indispensável um diploma de ensino superior para pendurar na parede e se auto-intitular alguma coisa. Designers de moda formados e que não sabem construir (bem) uma peça de roupa? Sim, existem muitos.

Saber fazer para saber ser

Por aqui, nas empresas calçadistas, ainda existe a divisão tradicional entre estilo, modelagem, corte, costura, montagem e finalização dos sapatos, processo produtivo complexo e ainda muito artesanal. Mesmo que, atualmente, já esteja bastante avançado o processo industrial da produção dos calçados.

Note bem: não vejo problema em existir essa divisão do trabalho, cada um fazendo uma atividade específica dentro de um ecossistema. A questão, me parece, é que se um profissional domina mais de um tipo de habilidade ou conhecimento, é por si só uma pessoa mais rica, consequentemente o trabalho será mais “incrementado” de novas ideias, novos pontos de vista. Arrisco dizer que será um profissional mais criativo, de alguma forma.

Os “makers” são figuras dotadas de conhecimento artesanal aliado às novas tecnologias. E talvez essa nomenclatura ajude a alavancar esse setor nesse novo milênio, já que também na Itália o profissional da linha de produção ficou estigmatizado por operar um trabalho meramente mecânico. Para muitas famílias era sinônimo de falta de estudo: se o filho não quisesse fazer uma faculdade, acabaria numa “manovia”, dentro de uma fábrica. No caso dessa região onde vivo, Le Marche, acabaria fazendo sapatos.

Não se parece tanto com a história das costureiras ou modelistas no Brasil? As próprias profissionais incentivavam as suas filhas a estudarem para não precisar seguir o seu ofício, nada valorizado. E que ironia, hoje em dia são um dos profissionais mais requisitados da moda. Imaginem estilistas que que sejam também bons modelistas, costureiros, cortadores, montadores: do projeto ao produto final, um ser humano com super poderes!

Coco Chanel afirmou, certa vez, sobre seu colega Cristóbal Balenciaga: “ele é um costureiro no verdadeiro sentido da palavra, os outros são apenas fashion designers”. Christian Dior também reconhecia: “ele é o mestre de todos nós”. Porque Balenciaga dominava a ideia e o fazer. Adiante na história, Yves Saint Laurent também seria reconhecido como um profissional completo como Balenciaga, o único, entre seus pares, a conseguir com as técnicas e tecnologias da sua época a dar vida às suas ideias.

Salvatore Ferragamo e suas formas estreladas. ©Reprodução.

O napolitano Salvatore Ferragamo também tem seu nome reconhecido na história da moda como designer e executor das suas peças, seus calçados eram muito famosos entre as estrelas de Hollywood. Um dos diferenciais de Ferragamo era ter estudado com profundidade a anatomia dos pés, entendendo bem a sua estrutura. Sobre ele vale dedicar um post completo depois.

Tecnologias dos Processos Produtivos

Um resumo, com captação e edição muito modestos, 
da aula do prof. engenheiro S. Berdini, na sede do IPSIA de Montegranaro. 
Os processos foram descritos e guiados pelos senhores Giuliano, Alfredo e Claudia.

Através do Instituto Tecnico Superiore (ITS) Moda e Calzature, frequento um curso de Qualidade e Inovação para o Made in Italy. Meu objetivo é entender como funciona a cadeia produtiva da Moda aqui na Itália, sua estrutura, aprendendo a fazer com as minhas próprias mãos um produto e saber gerir, ainda, a sua produção. Quero entender melhor o porquê do selo “Made in Italy” ser assim tão forte, no mundo todo. Ainda que os italianos mesmos, muitas vezes, não saibam disso.

A disciplina Tecnologias dos Processos Produtivos, ministrada pelo engenheiro Stefano Berdini, nos levou a uma fábrica piloto em Montegranaro para aprendermos todas as fases da construção de um calçado dentro de um processo semi-industrial. Ali, encontramos três figuras importantes e com uma bagagem  entre 35 a 50 anos de profissão: Claudia Ciccola (costura), Alfredo Forconesi (montagem) e Giuliano Morresi (corte).

Giuliano Morresi falou sobre os tipos de couro, as formas de curti-lo, 
sobre impressão, gramatura e melhores cortes de acordo com a posição 
que a pele vai estar disposta no calçado.

Do corte do couro (sobre inovação de materiais, falo noutra ocasião), costura, montagem e acabamento dos calçados, eles realmente entendem do riscado. Tanto que ministravam nessa fábrica piloto um curso específico para operários de linha de produção. Ministravam, no passado, já que o curso foi fechado por falta de alunos. Lembra-se do buraco no setor, sobre o qual falava anteriormente?

Ajustando para caber no futuro

Talvez o modelo “maker” não sirva exatamente para o tal ecossistema de produção em larga escala, mas será que o futuro seria o da produção mais enxuta, sustentável? O Pitti Immagine Uomo 91, que aconteceu entre os dias 13 e 16 de janeiro em Florença, a seção “Make, the New Makers” falou (dentre temas diversos) sobre a redescoberta do artesanato, da tradição que olha adiante. Entretanto, algumas marcas sob esse selo no evento andam na mão inversa, utilizando até mesmo pele de elefante na composição de seus calçados. Em 2017, ragazzi? Ma veramente?

Muito se fala, em sala de aula, sobre inovação. Eu diria que a verdadeira inovação é aquela que não esquece de ser sustentável. Nenhum tipo de tecnologia, a mais avançada delas, vai fazer sentido num planeta onde não existam mais pessoas caminhando sobre ele. E com o perdão da digressão encerro aqui, lembrando que sobre tecnologia dos materiais e novas alternativas para o couro, quem sabe, falo numa próxima oportunidade.

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SERÁ O PRÓXIMO ZEITGEIST (OU JÁ ESTÁ SENDO) OS ANOS 2000?

Daisy, Daisy / Give me your answer, do.

Um movimento persistente, observado por quem estuda tendências de consumo e comportamento, é o de rejeição ou repulsa de uma época pela sua geração exatamente anterior. E afinidade, digamos, por aproximadamente 20 anos antes.

Outra observância interessante nesse universo é que a primeira metade de um decênio se parece muito – esteticamente falando e principalmente na moda -, com a segunda metade do precedente, ainda que a gente não queira. É como pegar uma foto nossa em 2000 e compará-la com uma de 2010: a primeira vai se parecer muito mais com a gente nos mid nineties do que efetivamente com aquela de 2010.

Ciência bem longe de ser exata.

Ao contrário, papo ótimo para o povo de humanas fazer miçanga enquanto toma uma cerveja no bar. Mas nem por isso tais insights deveriam deixar de ser considerados, atenção. Ainda que falar de tendências de moda não faça mais sentido, enquanto houver capitalismo como sistema econômico vigente, o mercado quer saber sim o que as pessoas vão querer ouvir, ver, sentir, comer ou falar sobre. Consumir, afinal.

E aí, nessa matemática imprecisa, fica fácil dizer que estamos nos aproximando de um momento onde a nostalgia nos levará a querer novamente viver os anos 2000. Não acredita?

2001

Aparentemente, #Greenery também era a 
"cor do ano" de 2001. 

Os 90 estão no ar há uns dois anos e devem sair de cena ali na esquina de 2020. Mas arrisco dizer que os anos 2000 fazem um fade in desde já, em 2016/17. Eis algumas observações:

Fator Black Mirror

Não é atoa que a série Black Mirror, apesar de ter sido lançada em 2011, só foi ser sucesso em 2016. Spoiler: nossa relação com as novas tecnologias é questionada e especulada sob diversos vieses na série.

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E a figura de nós mesmos vista pela tela desligada (o tal espelho negro) não é nada boa. Como se tivéssemos tomado a pílula vermelha de The Matrix, aquele outro bom pacote de especulações possíveis sobre a nossa sociedade, dirigido pelas irmãs Wachowski (isso mesmo, irmãs, se é que você ainda não sabe que são transgêneros). Drink bebido direto da fonte de Baudrillard.

E em qual ano mesmo foi lançado The Matrix? Em 1999, com vários prêmios pela Academia em 2000.

Ata.

Bug do milênio e hacktivismo estilo Anonymous. Será que esses hot topics do começo dos anos 2000 foram fatores para que, nesse zeitgeist sobre o qual pensamos agora, seja o motivo por termos consumido vorazmente as duas temporadas de Mr. Robot? Me diga você.

E para o climão hipernormativo que vivemos, Hypernormalisation, do inglês Adam Curtis, é um tem-de-ver-por-que-sim. Ajuda a entender muito as coisas por aqui e o que vem por aí. Segue a esteira das “verdades inconvenientes” o documentário de Leonardo Di Caprio, Before the Flood (2016), lembrando aquele de Al Gore, 10 anos antes. Vai lá.

Uma segunda chance para o Second Life

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Metalinguagem.

Se Realidade Aumentada (AR), Realidade Virtual (VR) e imersão são as novas palavras de ordem no universo da tecnologia, games sub aproveitados como Second Life, febre do início dos anos 2000, poderão ganhar nova oportunidade de explodir num ambiente com Óculus Rift e seus pares, smartphones poderosos e internet banda larga, realmente rápida.

E nem foi atoa que a equipe de criadores de Second Life lançou o Projeto Sansar. Um novo espaço online para empresas e indivíduos experimentarem ambientes virtuais imersivos. Disponível ainda no começo de 2017. Gamificar tudo agora faz realmente sentido.

Her

De novo lembrando 2001, Uma Odisseia no Espaço de Kubrick, a Inteligência Artificial (IA) de Hal 9000 é emblemática e parece ter servido de inspiração para Spielberg no seu filme I.A., coincidentemente (?) lançado em 2001: mais uma vez a inteligência das máquinas era vista como uma coisa ruim. Eu, particularmente, acho essa ideia no mínimo vintage.

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Fiz download da última versão possível do IOS para que Siri, a inteligência artificial da Apple, conversasse comigo. Sim, nesse grau de loucura. Achei interessante. Porém, trata-se de uma experiência ainda pueril. Ela acha uns arquivos lá e tudo mais… mas dona Siri, a senhora ainda tem um mato alto pra roçar.

O novo escapismo ou eram nossos filhos astronautas?

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A visão de que dentro de 15-20 anos poderemos finalmente povoar Marte, tem feito com que nomes como Carl Sagan venham à tona no mainstream e tornem-se filosofia pop, que mães incentivem em massa os seus filhos a se tornarem astronautas, que muitas imagens do Cosmos circulem pela internet e as que as pessoas comecem (será?) a olhar para o céu.

Todos os filmes e séries com a “pegada” científica têm sido hot ticket. Começou com Interstellar, passando por The Martian, Moon, para citar os bons. Porque dos ruins a lista é grande.

E eu, se quero estar na trip para Marte? Certeza.

Gilmore Girls e não só

Estão curtindo a volta Gilmore Girls? That’s 2000’s Show, queridos. Mais um sinal dos tempos de que estamos querendo o começo do novo milênio de volta. Claro, com um bom tempero feminista, como tem de ser.

Fiz um resumo muito rápido do que podem ser pistas de um 2000 aterrissando no seu terreno. Antecipando coisas para que depois vocês, na moda, não comecem a usar uns trecos de gosto duvidoso, tipo essa proposta de Christopher Kane para Crocs, no seu SS/17.

Crocs, empresa essa que, aliás, foi criada em 2002.

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Can Crocs ever be cool? Not at this house, babe. 

Disso, fuja enquanto é tempo.

;)

A NOVA BELEZA DA WIRED ITÁLIA

Provavelmente vou trazer mais posts como este. Aquela tal pensata, sem me preocupar com o SEO de cada dia dos redatores de blog. Agora que estão todos no Youtube – “youtubers” são os novos bloggers, não é isso? – acho que posso largar o dedo nessa máquina aqui e deixar a criatividade ir além das regras cagadas pelo Google. Aliás, tudo sempre pôde, Raquel, assuma: era eu é que não fazia mesmo, mea culpa.

Vivo uma relação de amor e ódio com esse espaço desde que ele foi criado. Tentei estabelecer um compromisso que eu sempre soube não poder cumprir, mas sustentar o tal trato comigo mesma mantinha uma certa dignidade, minha e do blog, sabe como? Um negócio meio eu não te cobro e você não me cobra, e seguimos juntos felizes assim. Eu nunca tive a menor pretensão de conseguir escrever diariamente, apesar de tentar diversas vezes conciliar mais posts na minha semana louca. Sigo tentando.

Despretensão. Um dos bons adjetivos da nova fase da edição italiana da Revista Wired, e é sobre isso que vim aqui falar. A sua nova linha editorial não tem pressa, acontece quando tem de acontecer, ao seu tempo justo: avisou logo o editor quando a publicação passou por essa mudança radical.

Receita prática para um bom conteúdo, vale ler.

No geral, as suas matérias eram sempre sobre tecnologia e design, com mais bossa que a Info, no Brasil. Mas eles deixariam essa concorrência de resenhas e artigos sobre novos gadgets para, bem, a concorrência. Pelo menos na edição impressa, sobre a qual me debruço aqui.

©Reprodução

E abriram caminho para um novo tempo que precisamos entender melhor. “Precisamos”, porque me incluo nessa geração afogada pela infomaré: a nova Wired é uma revista que reflete o momento. Uma espécie de filosofia da estética, da ciência e da tecnologia, mas não só.

A Wired Italiana abraça uma linha de raciocínio e vai firme com ela até a última virada de página, completa: da primeira à quarta capa, entre capítulos (sim, ela é dividida em capítulos), um projeto gráfico impecável e contemporâneo, de chorar de tanta beleza.

E é sobre ela, a beleza, que a edição outono 2016 versa. A proposta da revista é pensar sobre como o digital mudou nossos cânones estéticos. O jornalista não está presente ativamente nas matérias, na verdade, convidados assinam cada texto com o pano de fundo da estética do belo.

belezza_wired“Sem distinção de sexo, de raça, de língua, de religião. É o belo da nossa Constituição, o contínuo chamado à igualdade dos cidadãos e dos seus direitos: por isso a educação para o respeito às diferenças é fundamental no nosso país.” Monica Cirinnà. A foto amadora é claramente minha.

Alguns nomes que assinam a edição? Alejandro Jodorowsky, Julian Assange, Monica Cirinnà – responsável pela lei que reconhece a união civil entre pessoas do mesmo sexo, aprovada em 20 de maio desse ano, aqui na Itália -, o artista Christo, Marina Silva. Marina Silva? Sim, assina um importante texto sobre leis ambientais, sua relação com o clima e o futuro, no capítulo “Libertà”. Bom texto.

Eu tenho um apreço muito grande pela mídia revista, boto fé no formato, sou grande fã e sei quanto custa imprimir uma edição como essa. Por isso, trato um conteúdo como esse produzido pela nova fase da Wired como um livro: o digital pode até fazer deixar de existir essa “beleza” impressa, num futuro distante – mas por um bom tempo as duas coisas ainda vão continuar por aí.

Uma boa revista é, sob meu juízo, atemporal. Mas a Wired entrou para minha estante também como registro do nosso tempo em 2016, assim como o jornal aqui de Fermo, que noticiou os terremotos pelos quais passamos. Assim como os jornais do princípio do “novecento“, que comprei no mercado antigo, em agosto de 2015.

Vai ser bacana ler tudo de novo, no futuro. E fico por aqui.

Vale o clique: quem assina o design editorial da Wired Italia é o Estúdio PITIS. Com louvor ;)

MANUS MACHINA – REDES DO FUTURO

Artigo publicado pela Revista Tecnography, Edição Redes.

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Concentrada nos caminhos da moda – ainda que de maneira deliciosamente diletante – logo no princípio de 2015 eu conversava com uma designer de moda portuguesa, que me lançou uma clara ideia sobre o que significa realizar um trabalho realmente apontado para o futuro. Para resumir o papo e o pensamento, que é amplo, numa só palavra, eu diria: interdisciplinaridade ou… redes.

O CES, importante evento do setor de bens de consumo eletrônicos, que acontece anualmente em Las Vegas, EUA, inaugurou 2015 espalhando aos quatro ventos que esse seria o ano das wearables.

A Intel faria o lançamento do seu chip Curie, um módulo programável pequeníssimo, do tamanho de um botão, que reduziria o volume do hardware presente nas roupas e acessórios inteligentes, daquele momento em diante.

INTERDISCIPLINARIDADE

Desde que os estilistas começaram a se interessar em embutir funcionalidades outras nas roupas, além das óbvias, foi aberto um caminho sem volta para resultados que seriam produzidos através das redes de pensamentos, de habilidades, de disciplinas. E de pessoas. Essa maravilhosa configuração dos processos e saberes do século XXI, aquela tal interdisciplinaridade sobre a qual conversávamos eu e Alexandra Cabral, a designer portuguesa.

Pensei sobre a moda e seu eterno retorno às décadas passadas, através de estilos étnicos, góticos, minimalistas, maximalistas, românticos ou esportivos… Com alguma pitada de novidade, certo, mas ainda sem experimentar algo totalmente novo.

É a moda do passado, que recorre à ele, que orbita nele. Coisas de um mercado que precisa manter-se na zona de conforto da aceitação do consumidor final. Esse lugar-comum, encontrado a cada temporada, pelos escrevinhadores das modas do mundo.

ANTI-FASHION

Li Edelkoort, uma das trend forecasters mais respeitadas atualmente, publicou também nesse ano seu Anti_Fashion Manifesto, elencando as razões pelas quais acredita que o sistema da moda, como o conhecemos, é obsoleto. Como se pode notar, 2015 realmente foi um ano agitado para quem ainda insiste em acreditar que esse fast fashion nada forward, guia do mundo através do retrovisor, vai conseguir sustentar o mercado.

E as grandes maisons já estão sofrendo duramente com esse sistema. Scusami, Mr. Slimane: Saint Laurent Paris é a nova Zara, só que com preços astronômicos. Nessa dança das cadeiras da alta moda, em 2015, sambaram Raf Simons, da Dior, e Alber Elbaz, da Lanvin. Mas quem consegue fazer um trabalho apurado com seis coleções ao ano? Eles, nomes maiores que as casas que levavam, preferiram abster-se desse jogo sujo que o fashion business selvagem tem imposto aos seus criadores. Soa muito dramático? É o que está tendo.

Enquanto isso, descolados do capital, ou pelo menos, não só concentrados nele, nos laboratórios que cruzam moda, tecnologia, design e ciência, mundo afora, pensamentos voam além dos bureaus de tendência de cores, tecidos e do comportamento de consumo. Na verdade, são eles que fazem a tendência: não aquela que você vai encontrar imediatamente nas araras da sua loja favorita. Mas a que vai dirigir o zeitgeist do mundo todo, daqui a 10, 50, 100 anos.

MAKERS GONNA MAKE

Uma configuração multidisciplinar de trabalhos pode ser realizada entre pessoas com diferentes skills e conhecimentos, e Iris Van Herpen é um belo exemplo. O “staff” da designer de moda holandesa é formado por arquitetos, programadores, engenheiros. Seu estilo não é feito só com agulha e linha. É o exemplo de pessoa que, ainda na faculdade, não teria medo de cruzar o campus e buscar novidades e parceirias em outros centros.

Como Danit Peleg. Essa jovem israelense apresentou como projeto de conclusão do seu curso de moda uma coleção totalmente impressa em 3D, utilizando uma impressora caseira, carregada com filamentos sintéticos maleáveis. Minha aposta para o futuro próximo, nesse cenário? Makers gonna make. O 3D é hot ticket para a moda, sim, e saber uma linguagem de programação vai ser parte do pacote do profissional desse milênio. Aquele que queira fazer uma moda com a cara do futuro.

Nessa seara, é bom observar o trabalho do casal Nervous System, cuja micro rede de conhecimentos surgiu com uma estética toda nova para a moda. Eles não são estilistas. São designers, programadores, que lançam mão do estudo da ciência e da natureza e utilizam a moda como plataforma para os seus resultados. Um deles? Vestidos impressos inteiramente em 3D – no caso de Danit foram “placas”, posteriormente justapostas –, e que hoje se encontram em museus como o Cooper Hewitt Smithsonian Design ou o MoMa, ambos em Nova York.

MANUS X MACHINA

E é do MET que chega a notícia de que a principal exposição arte-moda, a mais movimentada de 2016, tem como tema “Manus X Machina: a moda na era da tecnologia”. De 5 de maio a 14 de agosto será apresentada uma mostra que irá explorar o impacto das novas tecnologias na moda, e como os designers estão reconcilando o handmade com o “machine-made”, na alta costura e no ready-to-wear.

A exposição é patrocinada pela Apple e aí já abrimos, de antemão, uma nova rede: aquela que é conectada diretamente com os interesses, vejam só, do mercado: a gigante das tecnologias quer saber como explorar direitinho os confins da moda. Ora, direi, apenas através do desejo. Ele, que apesar de todos os futurismo e desapegos do business, continuará a existir, vaticinam os trendhunters.

Eu, por aqui, sigo certa de uma coisa: humanos serão humanos até o fim dos tempos. Seus afetos estão em constante conflito e o desejo é apenas um deles, concordando com os o que os especialistas em tendências dizem. Noves fora, o universo do conhecimento em redes pode, inclusive, fazer com que esse estímulo seja aplicado às novas tecnologias aplicadas à moda. Como o que a Apple está promovendo. Como o que os criadores do novo pensamento, entre a mão e a máquina, estão construindo.

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OBSOLESCÊNCIA PROGRAMADA

Se tem uma coisa mais odiosa no capitalismo que a obsolescência programada, eu desconheço. Dedico essa pensata a ela.

Para começo de conversa e entendimento desse meu mau humor com o tema, carece dizer que fui selecionada como beta tester de uma wearable e um dos pré-requisitos era ter um iPhone versão 4s, no mínimo.

So far so good, eis que chega a joia na minha casa. Não posso dizer de qual produto se trata, pois a marca exigiu sigilo, mas preparei todo o circo para uma futura divulgação de uma resenha, com direito a unboxing, instalação, impressões e etc. Só que deu ruim.

Deu ruim porque meu iPhone é, apenas, versão 4. Fuéin. Descobri isso quando, ao tentar baixar o app que gerencia a wearable fui informada que precisava da atualização 8.1.3 do iOS e… a versão 4 não a suporta, só a partir do 4s.

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A diferença entre a versão 4 e 4s – pegadinha.

Que eu jurava que fosse. Aliás, googlando, descobri que realmente existe uma diferença mínima entre as versões, e que váaaarios usuários se confundem mesmo. Ok, agora nunca mais esqueço.

Bom, em contato com o fabricante me disseram que, infelizmente, não poderia participar do programa. Com o rabo entre as pernas, fechei my precious de volta no seu estojo e o despachei para Londres, pelo correio. Preciso dizer o quanto fiquei danada da vida?

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Alegria de pobre dura pouco, fio.

A caminho de casa, me lembrei da obsolescência programada que é o leitmotiv de empresas como a Apple. E nem se trata de um segredinho sujo, heim, é sua razão de viver mesmo: lançar novas versões de sistemas operacionais  – hoje em dia com um espaço de tempo cada vez mais curto – para promover esse consumo desvairado. Todo mundo sabe, mas ninguém comenta.

Encontrei um documentário ó-te-mo sobre o assunto, que vale ser visto. Fala desde o cartel criado pelos fabricantes de lâmpadas incandescentes ao sistema usado por empresas como a Epson, que instalaria chips nas impressoras para fazê-las bloquear o seu funcionamento, depois de um número X de impressões. Podre, né? Tá aí o doc, a quem interessar possa:

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=5tKuaOllo_0]

O fato é que hoje tenho um hardware em perfeito funcionamento mas, infelizmente, vou ficar presa no tempo. Isso porque, para acessar os novos apps ou suas novas versões, vou ter de comprar, forçosamente, um novo aparelho e descartar um antigo que ainda funciona. Agora me conta: que tipo de inclusão digital é essa?

No documentário, faltou abordar essa nova faceta da obsolescência programada. Não é que o seu celular ou computador vão parar de funcionar: eles vão ficar orbitando o passado, caso não tenham seus softwares atualizados.

Assim, como fazem as pessoas que não possuem renda suficiente para ficar trocando de aparelhos nessa ferocidade da contemporaneidade? Lost in translation? Pois é.

Tá na hora de colocar a massa cinzenta para pensar sobre o assunto, pois a gente fala muito sobre sustentabilidade, inclusive na moda, mas ela e todas as coisas do mundo que dependerão, no futuro, de dispositivos como um iPhone ou seus pares para levar uma vida “inteligente”, não podem estar condenadas a simplesmente perder a sua utilidade, de acordo com a vontade das grandes corporações.

Honestamente, esse tipo de convenção capitalista só me faz pensar no passado, nunca no futuro.

Em tempo: a França aprovou, no último dia 6 de agosto, um artigo de lei que pune as empresas que praticam a obsolescência programada. “Mas as empresas vão perder com isso, promover demissões e etc” – dirão os defensores dessa ultrapassada economia. Ajustar para caber, eu diria, num novo modelo de business justo, que realmente esteja alinhado com um pensamento mais evoluído de sociedade.