MANUS MACHINA – REDES DO FUTURO

Artigo publicado pela Revista Tecnography, Edição Redes.

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Concentrada nos caminhos da moda – ainda que de maneira deliciosamente diletante – logo no princípio de 2015 eu conversava com uma designer de moda portuguesa, que me lançou uma clara ideia sobre o que significa realizar um trabalho realmente apontado para o futuro. Para resumir o papo e o pensamento, que é amplo, numa só palavra, eu diria: interdisciplinaridade ou… redes.

O CES, importante evento do setor de bens de consumo eletrônicos, que acontece anualmente em Las Vegas, EUA, inaugurou 2015 espalhando aos quatro ventos que esse seria o ano das wearables.

A Intel faria o lançamento do seu chip Curie, um módulo programável pequeníssimo, do tamanho de um botão, que reduziria o volume do hardware presente nas roupas e acessórios inteligentes, daquele momento em diante.

INTERDISCIPLINARIDADE

Desde que os estilistas começaram a se interessar em embutir funcionalidades outras nas roupas, além das óbvias, foi aberto um caminho sem volta para resultados que seriam produzidos através das redes de pensamentos, de habilidades, de disciplinas. E de pessoas. Essa maravilhosa configuração dos processos e saberes do século XXI, aquela tal interdisciplinaridade sobre a qual conversávamos eu e Alexandra Cabral, a designer portuguesa.

Pensei sobre a moda e seu eterno retorno às décadas passadas, através de estilos étnicos, góticos, minimalistas, maximalistas, românticos ou esportivos… Com alguma pitada de novidade, certo, mas ainda sem experimentar algo totalmente novo.

É a moda do passado, que recorre à ele, que orbita nele. Coisas de um mercado que precisa manter-se na zona de conforto da aceitação do consumidor final. Esse lugar-comum, encontrado a cada temporada, pelos escrevinhadores das modas do mundo.

ANTI-FASHION

Li Edelkoort, uma das trend forecasters mais respeitadas atualmente, publicou também nesse ano seu Anti_Fashion Manifesto, elencando as razões pelas quais acredita que o sistema da moda, como o conhecemos, é obsoleto. Como se pode notar, 2015 realmente foi um ano agitado para quem ainda insiste em acreditar que esse fast fashion nada forward, guia do mundo através do retrovisor, vai conseguir sustentar o mercado.

E as grandes maisons já estão sofrendo duramente com esse sistema. Scusami, Mr. Slimane: Saint Laurent Paris é a nova Zara, só que com preços astronômicos. Nessa dança das cadeiras da alta moda, em 2015, sambaram Raf Simons, da Dior, e Alber Elbaz, da Lanvin. Mas quem consegue fazer um trabalho apurado com seis coleções ao ano? Eles, nomes maiores que as casas que levavam, preferiram abster-se desse jogo sujo que o fashion business selvagem tem imposto aos seus criadores. Soa muito dramático? É o que está tendo.

Enquanto isso, descolados do capital, ou pelo menos, não só concentrados nele, nos laboratórios que cruzam moda, tecnologia, design e ciência, mundo afora, pensamentos voam além dos bureaus de tendência de cores, tecidos e do comportamento de consumo. Na verdade, são eles que fazem a tendência: não aquela que você vai encontrar imediatamente nas araras da sua loja favorita. Mas a que vai dirigir o zeitgeist do mundo todo, daqui a 10, 50, 100 anos.

MAKERS GONNA MAKE

Uma configuração multidisciplinar de trabalhos pode ser realizada entre pessoas com diferentes skills e conhecimentos, e Iris Van Herpen é um belo exemplo. O “staff” da designer de moda holandesa é formado por arquitetos, programadores, engenheiros. Seu estilo não é feito só com agulha e linha. É o exemplo de pessoa que, ainda na faculdade, não teria medo de cruzar o campus e buscar novidades e parceirias em outros centros.

Como Danit Peleg. Essa jovem israelense apresentou como projeto de conclusão do seu curso de moda uma coleção totalmente impressa em 3D, utilizando uma impressora caseira, carregada com filamentos sintéticos maleáveis. Minha aposta para o futuro próximo, nesse cenário? Makers gonna make. O 3D é hot ticket para a moda, sim, e saber uma linguagem de programação vai ser parte do pacote do profissional desse milênio. Aquele que queira fazer uma moda com a cara do futuro.

Nessa seara, é bom observar o trabalho do casal Nervous System, cuja micro rede de conhecimentos surgiu com uma estética toda nova para a moda. Eles não são estilistas. São designers, programadores, que lançam mão do estudo da ciência e da natureza e utilizam a moda como plataforma para os seus resultados. Um deles? Vestidos impressos inteiramente em 3D – no caso de Danit foram “placas”, posteriormente justapostas –, e que hoje se encontram em museus como o Cooper Hewitt Smithsonian Design ou o MoMa, ambos em Nova York.

MANUS X MACHINA

E é do MET que chega a notícia de que a principal exposição arte-moda, a mais movimentada de 2016, tem como tema “Manus X Machina: a moda na era da tecnologia”. De 5 de maio a 14 de agosto será apresentada uma mostra que irá explorar o impacto das novas tecnologias na moda, e como os designers estão reconcilando o handmade com o “machine-made”, na alta costura e no ready-to-wear.

A exposição é patrocinada pela Apple e aí já abrimos, de antemão, uma nova rede: aquela que é conectada diretamente com os interesses, vejam só, do mercado: a gigante das tecnologias quer saber como explorar direitinho os confins da moda. Ora, direi, apenas através do desejo. Ele, que apesar de todos os futurismo e desapegos do business, continuará a existir, vaticinam os trendhunters.

Eu, por aqui, sigo certa de uma coisa: humanos serão humanos até o fim dos tempos. Seus afetos estão em constante conflito e o desejo é apenas um deles, concordando com os o que os especialistas em tendências dizem. Noves fora, o universo do conhecimento em redes pode, inclusive, fazer com que esse estímulo seja aplicado às novas tecnologias aplicadas à moda. Como o que a Apple está promovendo. Como o que os criadores do novo pensamento, entre a mão e a máquina, estão construindo.

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