TECNOLOGIAS DOS PROCESSOS PRODUTIVOS DE CALÇADOS NA ITÁLIA

Claudia Cicconi é instrutora de costura na fábrica piloto de Montegranaro.

A Itália sofre de um mal semelhante ao vivido na cadeia produtiva da moda no Brasil: existem hoje verdadeiros buracos em setores técnicos, ou seja, faltam pessoas que saibam construir de fato uma peça de roupa com a maestria dos alfaiates, costureiras, modelistas de longa data ou, no caso do meu objeto de estudo aqui, assemblar artesanal ou industrialmente um par de calçados. E se orgulhar disso.

O boom das faculdades de moda e a glamourização da profissão do estilista pelas revistas parece ter contribuído para que criar uma ideia de que, mais importante do que modelar, cortar e costurar, fosse indispensável um diploma de ensino superior para pendurar na parede e se auto-intitular alguma coisa. Designers de moda formados e que não sabem construir (bem) uma peça de roupa? Sim, existem muitos.

Saber fazer para saber ser

Por aqui, nas empresas calçadistas, ainda existe a divisão tradicional entre estilo, modelagem, corte, costura, montagem e finalização dos sapatos, processo produtivo complexo e ainda muito artesanal. Mesmo que, atualmente, já esteja bastante avançado o processo industrial da produção dos calçados.

Note bem: não vejo problema em existir essa divisão do trabalho, cada um fazendo uma atividade específica dentro de um ecossistema. A questão, me parece, é que se um profissional domina mais de um tipo de habilidade ou conhecimento, é por si só uma pessoa mais rica, consequentemente o trabalho será mais “incrementado” de novas ideias, novos pontos de vista. Arrisco dizer que será um profissional mais criativo, de alguma forma.

Os “makers” são figuras dotadas de conhecimento artesanal aliado às novas tecnologias. E talvez essa nomenclatura ajude a alavancar esse setor nesse novo milênio, já que também na Itália o profissional da linha de produção ficou estigmatizado por operar um trabalho meramente mecânico. Para muitas famílias era sinônimo de falta de estudo: se o filho não quisesse fazer uma faculdade, acabaria numa “manovia”, dentro de uma fábrica. No caso dessa região onde vivo, Le Marche, acabaria fazendo sapatos.

Não se parece tanto com a história das costureiras ou modelistas no Brasil? As próprias profissionais incentivavam as suas filhas a estudarem para não precisar seguir o seu ofício, nada valorizado. E que ironia, hoje em dia são um dos profissionais mais requisitados da moda. Imaginem estilistas que que sejam também bons modelistas, costureiros, cortadores, montadores: do projeto ao produto final, um ser humano com super poderes!

Coco Chanel afirmou, certa vez, sobre seu colega Cristóbal Balenciaga: “ele é um costureiro no verdadeiro sentido da palavra, os outros são apenas fashion designers”. Christian Dior também reconhecia: “ele é o mestre de todos nós”. Porque Balenciaga dominava a ideia e o fazer. Adiante na história, Yves Saint Laurent também seria reconhecido como um profissional completo como Balenciaga, o único, entre seus pares, a conseguir com as técnicas e tecnologias da sua época a dar vida às suas ideias.

Salvatore Ferragamo e suas formas estreladas. ©Reprodução.

O napolitano Salvatore Ferragamo também tem seu nome reconhecido na história da moda como designer e executor das suas peças, seus calçados eram muito famosos entre as estrelas de Hollywood. Um dos diferenciais de Ferragamo era ter estudado com profundidade a anatomia dos pés, entendendo bem a sua estrutura. Sobre sua trajetória dedico um post completo, depois.

Tecnologias dos Processos Produtivos

Um resumo, com captação e edição muito modestos, 
da aula do prof. engenheiro S. Berdini, na sede do IPSIA de Montegranaro. 
Os processos foram descritos e guiados pelos senhores Giuliano, Alfredo e Claudia.

Através do Instituto Tecnico Superiore (ITS) Moda e Calzature, frequento um curso de Qualidade e Inovação para o Made in Italy. Meu objetivo é entender como funciona a cadeia produtiva da Moda aqui na Itália, sua estrutura, aprendendo a fazer com as minhas próprias mãos um produto e saber gerir, ainda, a sua produção. Quero entender melhor o porquê do selo “Made in Italy” ser assim tão forte, no mundo todo. Ainda que os italianos mesmos, muitas vezes, não saibam disso.

A disciplina Tecnologias dos Processos Produtivos, ministrada pelo engenheiro Stefano Berdini, nos levou a uma fábrica piloto em Montegranaro para aprendermos todas as fases da construção de um calçado dentro de um processo semi-industrial. Ali, encontramos três figuras importantes e com uma bagagem  entre 35 a 50 anos de profissão: Claudia Ciccola (costura), Alfredo Forconesi (montagem) e Giuliano Morresi (corte).

Giuliano Morresi falou sobre os tipos de couro, como curti-lo, 
sobre impressão, gramatura e melhores cortes de acordo com a posição 
que a pele vai estar disposta no calçado.

Do corte do couro (sobre inovação de materiais, falo noutra ocasião), costura, montagem e acabamento dos calçados, eles realmente entendem do riscado. Tanto que ministravam nessa fábrica piloto um curso específico para operários de linha de produção. Ministravam, no passado, já que o curso foi fechado por falta de alunos. Lembra-se do buraco no setor, sobre o qual falava anteriormente?

Ajustando para caber no futuro

Talvez o modelo “maker” não sirva exatamente para o tal ecossistema de produção em larga escala, mas será que o futuro seria o da produção mais enxuta, sustentável? O Pitti Immagine Uomo 91, que aconteceu entre os dias 13 e 16 de janeiro em Florença, a seção “Make, the New Makers” falou (dentre temas diversos) sobre a redescoberta do artesanato, da tradição que olha adiante. Entretanto, algumas marcas sob esse selo no evento andam na mão inversa, utilizando até mesmo pele de elefante na composição de seus calçados. Em 2017, ragazzi? Ma veramente?

Muito se fala, em sala de aula, sobre inovação. Eu diria que a verdadeira inovação é aquela que não esquece de ser sustentável. Nenhum tipo de tecnologia, a mais avançada delas, vai fazer sentido num planeta onde não existam mais pessoas caminhando sobre ele. E com o perdão da digressão encerro aqui, lembrando que sobre tecnologia dos materiais e novas alternativas para o couro, quem sabe, falo numa próxima oportunidade.

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